sexta-feira, 25 de maio de 2012

Chuva




                Da sacada eu olho pra o breu e ouço calmamente a chuva cair fria e barulhenta. Aqui com meu cigarro, e claro um café pra não perder o costume, penso nos dias em que saíamos a correr pela chuva, como se ao invés de água caísse algodão doce do céu.
                       Lembro bem de um dia que me foi muito especial, pois essa data se repete todos os anos, era meu aniversário, e como sempre uma surpresa vindo deles era a única coisa que eu tinha certeza naquela noite. Fui ao cinema e olhei um filme consideravelmente ruim, mas eu precisava ficar fora de casa, pois não queriam  que eu visse o que estavam planejando. Trilhando o caminho da volta, senti a curiosidade e a ansiedade caminhando ao meu lado. Eu ia contando os passos pra chegar em casa e ver o que me esperava. Por mais perto que fosse o caminho, a demora era um quanto grande e eu estava com frio e molhado, pois o guarda-chuva era pequeno para abrigar nós dois. Subindo as escadas eu contava cada degrau que ficava para trás, fazia isso pra tentar ficar menos ansioso e ver se o tempo passava mais rápido. Enfim, era eu a porta e uma surpresa. Abri a porta e lá estavam todos rindo e cantando... balões, velas, lençóis, vinhos, cigarros, plantas, cinzeiros, violão, amigos, sonhos, viagens, bêbados, e foi assim que minha noite começou, uma linda serenata com direito a performance e figurino. Estavam de cueca, sim, de cueca e de blazer, e no peito nu escrito uma letra e no outro outra letra, então eu li ...
                    Foi lindo. Claro que como sempre escorriam lagrimas pelo meu rosto, isso prova o quanto eu sou chorão. Era verão, era Novembro. Depois de muita festa, abraços, beijos, comida, barulho, danças, viagens, brindes, histórias, drinks, saímos pela madrugada a pular nas poças de água enquanto a chuva brincava de molhar meu rosto, tua mão e o pé dele até tocar o chão. O chafariz da praça tava escuro e sujo, tava lindo, mas nunca tinha almejado me jogar lá dentro e brincar feito uma criança.
                     Hoje cá estou, anos depois olhando para a chuva gelada, fria, cinza, cigarro, café, cadeira, céu, cheiro, luz, nuvens, água, janela, sacada, amigo, saudade, vento, coração, e almejando correr na chuva e saltar nas poças de água.

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